Razao Algo Que busco Em tudo

“Escolhi apagar você da minha vida porque pensava que assim encontraria a felicidade. Criei rituais pra suprir a tua falta, desenhei teu caminho de volta por todo meu corpo, repeti nosso diálogo final como um rádio quebrado, fujo do seu nome como quem foge do contato com uma pessoa pesteada, rasguei todas as roupas que possuíam teu cheiro, não conjugo mais amor e teu nome na mesma frase, refiz todos os meus caminhos para não correr o risco de te encontrar, queimei a única foto que tínhamos juntos, meu guarda roupas se tornou a representação de tudo que tu abomina. Eu aprendi infinitas maneiras para escapar do nosso relacionamento e de qualquer outro envolvimento que eu possa ter com uma pessoa já que o simples fato de pensar que isso pode acontecer mais uma vez me causa urticaria porque só eu sei o peso da cruz que ainda carrego por você. Os sábios afirmam que todo ser humano é mero conjugador que fique aqui registrado que até minhas conjugações você levou.”

Eu desaprendi a conjugar amor.

(via prestigiador)

(Source: morbidavel, via prestigiador)

“Quando terminei de tomar banho, prestei um pouco de atenção em meu reflexo no espelho. Sem perceber, acabei sorrindo. E, meu Deus, eu amei aquele sorriso. Amei a curva que fazia em meu rosto, no espelho embaçado pelo vapor da água quente. Também adorei a forma como aquilo acendia em meu rosto, me deixando por alguns instantes, feliz. Quando comecei a secar meu corpo, meus dedos! Eu nunca havia prestado tanta atenção assim, eram levemente tortos, não eram muito parecidos uns com os outros, mas era lindos; o tamanho, as unhas ruidas, tudo. Seguindo pelo meu braço, tão brancos quanto o vapor, nada muito especial por lá, mas eram tão lindos. Segui para meu tórax. E outra vez, nada muito chamativo. Mas eu amei minhas clavículas que saltavam quando eu movia os ombros para frente. E mais pra baixo, o formato do meu umbigo. Eu nunca havia percebido, para era algo tão único, tão meu, impossível não amar. Desci pelas minhas pernas, não eram perfeitas. Na verdade, eram sim, eram minhas, eram lindas, eram perfeitas. Cheguei nos meus pés. Sempre achei que fossem grandes demais, mas não eram. Eu não parecia um pato com eles, eles eram lindos na verdade. Não chamavam atenção, eram simplesmente meus, simplesmente exatamente da forma que eu queria que fossem. Eu não mudaria nada ali, mesmo que eu pudesse. Eu não mudaria meu nariz, nem meus olhos, menos ainda meus cabelos. Eu não tinha problema com minhas orelhas mais, não buscava sempre tapa-las. E minha testa não era assim tão demasiadamente grande. Meu corpo era lindo. Se eu pudesse escolher cada detalhe, deixaria cada marquinha de sol exatamente onde estavam. Era eu ali. Era meu corpo, minha vida estava ali, diante do espelho. E sinceramente, nunca me senti tão sortudo por ser eu. Toda a nudez não ocultava nenhum dos defeitos, que aliás, quem disse que são defeitos? Se forem, são perfeitos pra mim. E conforme as gotas de água escorriam por mim, me sentia mais leve. A sujeira que eu carregava na alma, parecia descer lentamente por aquelas gotículas. E conforme eu me olhava, eu me amava mais. Amei tudo aquilo que sempre quis mudar em mim, e me abracei com força. Meu corpo não tinha mudado, mas eu sim. Eu me amei. A partir daquele momento, eu ainda era a mesma pessoa, com os meus defeitos, mas eu me amava. De verdade, sem precisar esconder meus detalhes de ninguém. Tanto tempo para finalmente perceber… como eu nunca notei isso? Eu sou perfeito exatamente da forma que sou. Eu sou meus defeitos, cicatrizes e falhas. Memórias, amores e lágrimas. Exageros, timidez e preguiça. Eu finalmente era eu.”
A culpa é mesmo das estrelas?  (via prestigiador)

(Source: alentador, via prestigiador)

“Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar.”
Caio Fernando Abreu.    (via sereno)

(Source: chocklad, via sereno)

“Pessoas são como trens, entende? Elas vão surgindo em estações conforme as nossas necessidades de desembarque. Se você está triste, irá aparecer aquele ser alegre que te levará até o teu próximo destino, o da felicidade e depois você pegará suas bagagens e irá para outra plataforma. Se você se encontrar sem conteúdo, irá buscar um transporte interessante, repleto de anúncios, conversas, diálogos e quando estes se tornarem monótonos, você vai fazendo com que se reduza a velocidade e pula fora. Se você está doente, irá aparecer aquele “médico”, seja ele profissional ou apenas de consideração, que lhe cuidará, levantará seu astral e quando você estiver bem, irá despachar suas malas para outro portão e embarcar em outro alguém, ops, outro trem. Somos passageiros exigentes! Quem iria querer seguir viagem com uma pessoa que esteja procurando o mesmo rumo que a gente? Viagens longas são cansativas. Uma hora temos que descer e subir em outro ponto, temos que mudar de estação, pois só então conseguiremos ter algo novo. Sentir algo novo. Mas como diria Renato Russo, “nada vai conseguir mudar o que ficou”. Todo trem e o percurso por — ou com o qual — passamos deixa rastros; o do pneu na estrada, as lembranças de um abraço na chegada e na partida, as palavras trocadas durante os minutos, horas, dias, meses ou anos percorridos, as atitudes — seja a de abrir a janela para jogar um medo fora ou de deixar um ar de esperança entrar, ou quem sabe a de desviar ou passar por cima de uma pedra, pular um assento, enfim. Pessoas passam. Sinal verde, amarelo ou vermelho? Como está o seu semáforo?”
Sou um ser feito de barro, apenas.  (via prestigiador)

(Source: serdebarro, via prestigiador)

“Hoje bateu saudade daqueles velhos tempos onde os meus sorrisos eram tão fáceis de surgir.”
Pedro Schier. (via flipsidde)

(Source: declamador, via padronizar)

Eu guardo pra mim mesmo, porque no fundo é melhor. Uns vão escutar e não entender, outros vão ouvir e fingir que se importam quando no fundo não faz a menor diferença, e uns poucos e bons vão ficar mal por mim… Então deixa assim.
Vinícius Kretek.  (via autografos)

(Source: 27-06, via padronizar)

“Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia…
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente…
- Pois é…
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo…
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah…
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena…
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar…
- Entendo.
- A senhora também…
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim…
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra…
- A senhora… Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é…
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo…
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos…
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler…
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que…
- Ontem, no seu lixo…
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode…
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?”
Luis Fernando Veríssimo. (via versografo)

(Source: estrebias, via uma-directioner-suicida)

ivalentim:


Coca-cola, formigas atômicas e combo de pipoca.

 Tava na fila do cinema quando vi um cara com blusa das formigas atômicas acenar pra mim. Olhei duas, três, cinco mil vezes pra ver se eu não tava delirando. Ele vinha na minha direção com os braços abertos e eu calculei a distância entre o elevador mais próximo e eu. Não dava tempo de correr. Também não dava tempo de cavar um buraco no piso do shopping e pular dentro.
 ― Ei, preta. ― Ele me deu um abraço estranho de uma só mão e eu meio que abracei a outra mão dele e… hãm, foi um desastre. Mas meu coração doeu quando eu ouvi essa voz e esse apelidinho que anos atrás, eram suficientes pra deixar meu dia mais feliz. 
 ― O…hei… ã.  ― Eu queria dizer “Hey, oi, e aí?”. Mas não conseguia pronunciar direito.
 ― Quanto tempo né. 
 ― Pois é… ― Balancei a cabeça.
 ― É… e aí?  
 ― Tudo nice.
 ― Então… anos, né?
 ― Pois é. Três ou quatro.
 ― Acho que é quatro.
Três anos, nove meses e quatro dias, querido.
 ― É…
 ― Arram…
 ― Pois é.
Passamos algum tempo nos olhando constrangedoramente. Lembrei do tempo que nós tínhamos assunto. Era natural como respirar. Passávamos umas boas três, quatro horas no telefone. O assunto nunca acabava e o silêncio também não era um incômodo, nós meio que nos entendíamos. E olha só pra gente agora. Procurei na minha cabeça algum assunto que poderia falar com ele, mas não vinha nada. Estava quase correndo pra longe quando…
 ― Uma amiga minha te viu um dia desses.
Meses e meses atrás, corrigi mentalmente.
 ― Dalila?
 ― Não, não. Você não conhece.
― Então como ela sabe quem sou eu?
Ok. Já posso correr. Deveria dizer “não, é que assim, você é meio que o cara que eu mais amei na vida e meio que eu ainda falo de você pra Deus e o mundo”? Não né.
― Quis dizer que você não deve se lembrar dela, enfim, esquece.
― E esse suco aí na tua mão?
Olhei pra baixo e notei realmente que eu estava segurando um copo de suco de laranja. Alguém, que eu não me lembrava agora quem era, tinha ido comprar pipoca pra gente também, eu acho.
 ― É um suco.
 ― Tá brincando que é um suco? ― Ele ironizou. ― Tô querendo saber, é, cadê tua coca cola?
 ― Ah, sim, sim.  Não tomo mais, sabe. ― Era minha deixa. Ensaiei falar isso faz anos.  ― Mudei muito.
 ― Tu? Mudou? Tu? Parou de tomar coca? Ta beleza, eu acredito.  
 ― Não ta vendo o suco na minha mão? Parei de tomar coca.
 ― Não parou não.
 ― Parei. ― Queria jogar o suco na cara dele ― Isso aqui é suco.
 ― Mas continua querendo tomar coca.
 ― Isso não significa nada.
 ― Claro que significa. ― Ele sorriu ― Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda. Tu sempre vai desejar uma coca gelada que rasga a garganta. Pega logo uma coca.
 Verdade. Quase pude sentir o gosto enquanto ele dizia isso. Como eu queria coca-cola. Quase dois anos que eu não tomo e eu nunca deixei de querer tomar.
Mas enfim, o que tem haver?
 ― Que bom que só querer não dá celulite né?  ― Sorri.
 ― Você seria linda de qualquer forma. Com ou sem celulite.  ― Ele falou em um tom mais baixo e mais intenso, e eu tive um ataque cardíaco, pelo menos era o que eu sentia. Olhei pros lados disfarçando a timidez.
 ― E os caras?  ― Ele perguntou quando teve a certeza de que eu não iria mais responder.
 ― Que caras?
 ― Os caras, né.
 ― Hãm?
 ― Namorados, preta, namorados, problemas, paqueras, etc.
Ah sim. Isso me lembrou que tinha alguém comprando pipoca em algum lugar desse shopping. Olhei de relance pra ver se encontrava, mas aparentemente não estava em nenhum canto. Ou era culpa minha, que só conseguia ver o cara de camisa das formigas atômicas na minha frente.
 ― Tô namorando.
 ― Você? ― Ele levantou a sobrancelha.
 Me senti um pouco ofendida com o tom de voz dele. ― Eu mesma.
 Ele me fitou por algum tempo em silêncio.
 ― O que?  ― Já tava sem paciência.
 ― É…  ― ele pensou por mais alguns segundos  ― Estranho, eu acho.
E eu entendi o que ele quis dizer. A gente só se conhecia como um sendo a pessoa do outro. Nós éramos o amor da vida um do outro, a alma gêmea, a metade da laranja e qualquer outro nome que dão pra isso. Era algo fora do contexto esse nosso encontro, a gente aqui, como dois conhecidos que não se vêem há anos. Como que a gente foi se perder assim? Como que nossas vidas que pareciam tão juntas e tão entrelaçadas e tão grudadas, inventaram de mudar de rumo? Eu me sentia até culpada, eu acho. Era tudo bonito demais e triste demais e apaixonado demais pra ter acabado.
― É.
― Ainda escreve?
(Escrevo. Tô escrevendo um texto sobre você nesse instante.)
― Não ― Menti. ― Não tenho mais tempo pra isso. 
― Hum… Então você mudou.
― Mudei muito.
― Mentira sua ― Ele me olhou como uma criança implicante.
― Acredite no que quiser ―  Retribui o olhar.
― Aposto que ainda conta os dias e as datas.
― Não mesmo. Nem me lembrava mais disso. Aliás, que dia é hoje?
― Quanto tempo pro teu aniversário?
― Que?
― Quanto tempo falta. Para o teu. Aniversário. ― Ele falou pausadamente.
Engoli seco. ― Eu sei lá.
― Eu sei que você tá contando.
― O que? Eu mesm…
― Anda.
― Não sei.
― Diz.
― Não dig…
― Agora.
O encarei por alguns segundos até suspirar pesadamente.
― Três meses e quatro dias.
― Aniversário da tua cachorra.
― Sete meses e… seis dias. 12 de dezembro. Aniversário de Belo Horizonte. Dia da morte do José de Alencar. Aniversário do Silvio Santos também.
― Viu, eu disse.
― Grande coisa. Todo mundo tem uma mania.
― Grande coisa. Você não mudou nada.
― Cortei o cabelo.
― Não mudou a cor.
― Não assisto mais novela.
― Continua achando que a vida é uma novela mexicana.
― Não como mais miojo.
― Ainda odeia usar garfo pra cortar a carne. 
― Tá. Tá. Eu entendi. Não mudei. Você venceu. Agora, pra quê tudo isso?
― Pra me certificar.
― De que?
Ele olhou pro lado e suspirou. ― De nada. De nada. Ei… tem um cara parado ali feito um bobo, acho que ele ta procurando alguém.
Segui o seu olhar e avistei um cara com um combo de pipoca na mão.
De alguma forma ele sabia quem esse cara é. Estranho.
― É meu namorado. Eu… eu tenho que…
― Tem que ir. ― Ele balançou a cabeça positivamente.
Droga. Porque é tão difícil ir embora? 
― Então, até um dia.
― Até ― Ele pegou minha mão e deu um beijo, então deu um meio sorriso e foi se afastando.
Mordi o lábio enquanto o vi partindo ― já o vira partir tantas outras vezes. A gente nunca acha que um dia vai acabar. A gente sempre acha que vai ter mais, algum dia, alguma vez. Até que acaba. Até que o máximo de proximidade entre vocês seja apenas encontrar um ao outro na fila de um cinema. E não há nada mais triste que isso de seguir em frente. Não há nada pior do que desvencilhar sua vida da de outra pessoa. E mesmo com tudo, é como se não existisse realmente um fim, mesmo depois de ter tido um fim…
― Espera!
 Ele se virou pra mim com surpresa em seus olhos ― O que?
― Você!
― Eu…
― Você é minha coca-cola.
― Eu sou o quê?
― Minha coca-cola. ― Ele vinha se aproximando e eu fechei os olhos, tentando me lembrar das palavras dele anteriormente. ― “Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda.”
― E o que isso significa?
― Você sempre vai estar aqui, mesmo não estando.
Ele deu um sorriso triste, e pelo seus olhos, vi que o meu também era. Ele colocou uma mecha do meu cabelo para de trás da minha orelha e suspirou.
― Você sempre vai ser a minha coca-cola, também.
― Até mais então.
― Até um dia, preta.
Cada um seguiu em frente novamente ― e literalmente. Fui encontrar o cara com o combo de pipoca, mas não pude deixar de olhar pra trás e ver, por mais uma ― e talvez última ― vez, o cara com a camisa das formigas atômicas.
Acho que vou tomar coca-cola hoje. (Iolanda Valentim)

ivalentim:

Coca-cola, formigas atômicas e combo de pipoca.

 Tava na fila do cinema quando vi um cara com blusa das formigas atômicas acenar pra mim. Olhei duas, três, cinco mil vezes pra ver se eu não tava delirando. Ele vinha na minha direção com os braços abertos e eu calculei a distância entre o elevador mais próximo e eu. Não dava tempo de correr. Também não dava tempo de cavar um buraco no piso do shopping e pular dentro.

 ― Ei, preta. ― Ele me deu um abraço estranho de uma só mão e eu meio que abracei a outra mão dele e… hãm, foi um desastre. Mas meu coração doeu quando eu ouvi essa voz e esse apelidinho que anos atrás, eram suficientes pra deixar meu dia mais feliz. 

 ― O…hei… ã.  ― Eu queria dizer “Hey, oi, e aí?”. Mas não conseguia pronunciar direito.

 ― Quanto tempo né. 

 ― Pois é… ― Balancei a cabeça.

 ― É… e aí?  

 ― Tudo nice.

 ― Então… anos, né?

 ― Pois é. Três ou quatro.

 ― Acho que é quatro.

Três anos, nove meses e quatro dias, querido.

 ― É…

 ― Arram…

 ― Pois é.

Passamos algum tempo nos olhando constrangedoramente. Lembrei do tempo que nós tínhamos assunto. Era natural como respirar. Passávamos umas boas três, quatro horas no telefone. O assunto nunca acabava e o silêncio também não era um incômodo, nós meio que nos entendíamos. E olha só pra gente agora. Procurei na minha cabeça algum assunto que poderia falar com ele, mas não vinha nada. Estava quase correndo pra longe quando…

 ― Uma amiga minha te viu um dia desses.

Meses e meses atrás, corrigi mentalmente.

 ― Dalila?

 ― Não, não. Você não conhece.

― Então como ela sabe quem sou eu?

Ok. Já posso correr. Deveria dizer “não, é que assim, você é meio que o cara que eu mais amei na vida e meio que eu ainda falo de você pra Deus e o mundo”? Não né.

― Quis dizer que você não deve se lembrar dela, enfim, esquece.

― E esse suco aí na tua mão?

Olhei pra baixo e notei realmente que eu estava segurando um copo de suco de laranja. Alguém, que eu não me lembrava agora quem era, tinha ido comprar pipoca pra gente também, eu acho.

 ― É um suco.

 ― Tá brincando que é um suco? ― Ele ironizou. ― Tô querendo saber, é, cadê tua coca cola?

 ― Ah, sim, sim.  Não tomo mais, sabe. ― Era minha deixa. Ensaiei falar isso faz anos.  ― Mudei muito.

 ― Tu? Mudou? Tu? Parou de tomar coca? Ta beleza, eu acredito.  

 ― Não ta vendo o suco na minha mão? Parei de tomar coca.

 ― Não parou não.

 ― Parei. ― Queria jogar o suco na cara dele ― Isso aqui é suco.

 ― Mas continua querendo tomar coca.

 ― Isso não significa nada.

 ― Claro que significa. ― Ele sorriu ― Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda. Tu sempre vai desejar uma coca gelada que rasga a garganta. Pega logo uma coca.

 Verdade. Quase pude sentir o gosto enquanto ele dizia isso. Como eu queria coca-cola. Quase dois anos que eu não tomo e eu nunca deixei de querer tomar.

Mas enfim, o que tem haver?

 ― Que bom que só querer não dá celulite né?  ― Sorri.

 ― Você seria linda de qualquer forma. Com ou sem celulite.  ― Ele falou em um tom mais baixo e mais intenso, e eu tive um ataque cardíaco, pelo menos era o que eu sentia. Olhei pros lados disfarçando a timidez.

 ― E os caras?  ― Ele perguntou quando teve a certeza de que eu não iria mais responder.

 ― Que caras?

 ― Os caras, né.

 ― Hãm?

 ― Namorados, preta, namorados, problemas, paqueras, etc.

Ah sim. Isso me lembrou que tinha alguém comprando pipoca em algum lugar desse shopping. Olhei de relance pra ver se encontrava, mas aparentemente não estava em nenhum canto. Ou era culpa minha, que só conseguia ver o cara de camisa das formigas atômicas na minha frente.

 ― Tô namorando.

 ― Você? ― Ele levantou a sobrancelha.

 Me senti um pouco ofendida com o tom de voz dele. ― Eu mesma.

 Ele me fitou por algum tempo em silêncio.

 ― O que?  ― Já tava sem paciência.

 ― É…  ― ele pensou por mais alguns segundos  ― Estranho, eu acho.

E eu entendi o que ele quis dizer. A gente só se conhecia como um sendo a pessoa do outro. Nós éramos o amor da vida um do outro, a alma gêmea, a metade da laranja e qualquer outro nome que dão pra isso. Era algo fora do contexto esse nosso encontro, a gente aqui, como dois conhecidos que não se vêem há anos. Como que a gente foi se perder assim? Como que nossas vidas que pareciam tão juntas e tão entrelaçadas e tão grudadas, inventaram de mudar de rumo? Eu me sentia até culpada, eu acho. Era tudo bonito demais e triste demais e apaixonado demais pra ter acabado.

― É.

― Ainda escreve?

(Escrevo. Tô escrevendo um texto sobre você nesse instante.)

― Não ― Menti. ― Não tenho mais tempo pra isso. 

― Hum… Então você mudou.

― Mudei muito.

― Mentira sua ― Ele me olhou como uma criança implicante.

― Acredite no que quiser ―  Retribui o olhar.

― Aposto que ainda conta os dias e as datas.

― Não mesmo. Nem me lembrava mais disso. Aliás, que dia é hoje?

― Quanto tempo pro teu aniversário?

― Que?

― Quanto tempo falta. Para o teu. Aniversário. ― Ele falou pausadamente.

Engoli seco. ― Eu sei lá.

― Eu sei que você tá contando.

― O que? Eu mesm…

― Anda.

― Não sei.

― Diz.

― Não dig…

― Agora.

O encarei por alguns segundos até suspirar pesadamente.

― Três meses e quatro dias.

― Aniversário da tua cachorra.

― Sete meses e… seis dias. 12 de dezembro. Aniversário de Belo Horizonte. Dia da morte do José de Alencar. Aniversário do Silvio Santos também.

― Viu, eu disse.

― Grande coisa. Todo mundo tem uma mania.

― Grande coisa. Você não mudou nada.

― Cortei o cabelo.

― Não mudou a cor.

― Não assisto mais novela.

― Continua achando que a vida é uma novela mexicana.

― Não como mais miojo.

― Ainda odeia usar garfo pra cortar a carne. 

― Tá. Tá. Eu entendi. Não mudei. Você venceu. Agora, pra quê tudo isso?

― Pra me certificar.

― De que?

Ele olhou pro lado e suspirou. ― De nada. De nada. Ei… tem um cara parado ali feito um bobo, acho que ele ta procurando alguém.

Segui o seu olhar e avistei um cara com um combo de pipoca na mão.

De alguma forma ele sabia quem esse cara é. Estranho.

― É meu namorado. Eu… eu tenho que…

― Tem que ir. ― Ele balançou a cabeça positivamente.

Droga. Porque é tão difícil ir embora? 

― Então, até um dia.

― Até ― Ele pegou minha mão e deu um beijo, então deu um meio sorriso e foi se afastando.

Mordi o lábio enquanto o vi partindo ― já o vira partir tantas outras vezes. A gente nunca acha que um dia vai acabar. A gente sempre acha que vai ter mais, algum dia, alguma vez. Até que acaba. Até que o máximo de proximidade entre vocês seja apenas encontrar um ao outro na fila de um cinema. E não há nada mais triste que isso de seguir em frente. Não há nada pior do que desvencilhar sua vida da de outra pessoa. E mesmo com tudo, é como se não existisse realmente um fim, mesmo depois de ter tido um fim…

― Espera!

 Ele se virou pra mim com surpresa em seus olhos ― O que?

― Você!

― Eu…

Você é minha coca-cola.

― Eu sou o quê?

― Minha coca-cola. ― Ele vinha se aproximando e eu fechei os olhos, tentando me lembrar das palavras dele anteriormente. ― “Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda.”

― E o que isso significa?

Você sempre vai estar aqui, mesmo não estando.

Ele deu um sorriso triste, e pelo seus olhos, vi que o meu também era. Ele colocou uma mecha do meu cabelo para de trás da minha orelha e suspirou.

Você sempre vai ser a minha coca-cola, também.

― Até mais então.

― Até um dia, preta.

Cada um seguiu em frente novamente ― e literalmente. Fui encontrar o cara com o combo de pipoca, mas não pude deixar de olhar pra trás e ver, por mais uma ― e talvez última ― vez, o cara com a camisa das formigas atômicas.

Acho que vou tomar coca-cola hoje. (Iolanda Valentim)

“— Merda.
— O que foi?
— Gosto mesmo de você.
— Isso é um problema?
— É, se você for me magoar.”
American Horror Story. (via efeitocaos)

(Source: verbismo, via gritos-da-morte)